Tique-Taque

E o tique-taque do relógio não para, e é como se me amarrasses os sentimentos e me impedisses de respirar. É o desespero de sentir o teu corpo junto ao meu. É a revolta de sentir o teu cheiro misturado com o meu. Porque a noite vai longa e o tempo já não volta atrás. E é o nojo de te sentir aqui e saber que apenas me vês por fora. É parar e perceber que realmente não me conheces. É parar e olhar que não somos nada, apenas estranhos um para o outro. Mas eu conheço-te, algures, á muito tempo atrás os meus olhos encontraram os teus. Mas tu não me viste, e eu feita de sonhos e esperanças, desenhei-te aqui, sentado ao meu lado na relva molhada. E é assim que o sonho começa, mas é também assim que ele acaba, porque eu não posso e não vou amar pelos dois. E não quero, nem consigo esquecer a indiferença nos teus olhos. Mas para mim, continuas aqui, desenhado no meu coração. E é isso que me magoa, porque para mim estarás sempre aqui, perto, bem pertinho do coração. Um olhar é apenas um olhar, uma expressão vazia e fria, e eu não te quero assim, nunca quiz. Quando te desenhei eras como eu, eras frágil e estavas a crescer. Mas agora, agora mudas-te e já cresces-te. E eu não te acompanhei, porque te tinha desenhado com demasiada paixão e carinho. E a paixão é frágil, muito mais frágil do que o amor. E eu amei-te, não a ti, mas á pessoa que desenhei no coração. Mas acordei, e rasguei essa imagem em mil e um pedaços, e agora, só te vejo a ti, a verdadeira pessoa que és, sem brilhos ou sombras. Tu e apenas tu. E espero consguir conhecer-te de novo .
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