Saudades Crónicas
Fazes-me mal. Fazes-me muito mal. E tu sabes, e eu sei. Mata-me ver-te, porque te quero tanto, mesmo com todo o mal que me fazes. E eu sei que não dá nem nunca vai dar, porque somos demasiado parecidos. E somos. Eu percebo as tuas indecisões, percebo não saberes se queres, percebo teres medo e andares para trás. Não percebo fechares-te para o mundo, que nada ajuda. Não percebo teres medo de tentar, és incerto até nos pequenos passos. Queres ter e ser, mas não te levantas para mudar. Deixas-te cair no sofá sem força e lá ficas, peso morto sem propósito algum. Isso não percebo por mais que tente. Não percebo porque desistes de procurar o que te faz feliz e te conformas com o que o leito do rio te trás. E no meio disto tudo magoas-me. Porque te quero tanto que tomava as tuas indecisões e as fazia desaparecer. Quero-te tanto e tão estranhamente como não pensei querer ninguém. É como se pudesses ser parte vital de mim, parte que me move e motiva. Mas não, hesitas. Cansas-me nos olhos de tanto te procurar. Feres me corpo e a alma quando te vejo, mas mesmo assim procuro-te. Grito por ti a meio da noite, mesmo sabendo que não vais ouvir. Tenho saudades tuas cravadas no peito. E não saem. Juro que não. Arranquei pele e carne e mesmo assim o teu bocado continua ali. Espalhada nas costelas, tecidos, peito, coração, exibe-se pomposamente a saudade de ti. Orgulhosa de ainda ali estar mata-me o corpo, essa , a saudade. Mata-me e deixa-me ficar vazia, de ti. Cabe em mim muito do mundo, assim como cabias tu, em vez desta estúpida saudade.
Que lindo. É engraçado quando nos identificamos tanto com o texto de alguém, vemos que padecemos da mesma dor, das mesmas incertezas*
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