Boa noite Lua,

Eventualmente deixas de ter certezas. Deixas de querer acreditar. Sorris falsamente, já nada parece verdade. Muda o tempo. Faz chuva e o céu está triste. Faz vento que abana os sonhos. O pôr-do-sol já passou e hoje era pintado de cores monótonas. As águas estão turvas e balançam o barco da vida. Faz falta o verão. Deixa saudades o sol. A noite está fria, e as ruas parecem as de uma cidade fantasma. Passam pessoas encolhidas e carrancudas. Retrai-nos o frio. Sorrimos menos. A praça está vazia. Ouvem-se ruídos ao longe, do outro lado do rio. Os barcos balançam solitários no cais. Apenas um sabe a vida. Apenas de um vem o ruído de uma leve respiração. Jaz imóvel na proa do pequeno moliceiro um solitário vulto. Inspira. Expira. Levemente. Custa respirar. Balança o barco e o vulto. Abre os olhos. Fixa o céu. Não há estrelas e a Lua está escondida atrás de densas nuvens. Amanhã vai chover, pensa. O vento fica forte, balança o barco. Enrosca-se dentro do pequeno moliceiro e fecha os olhos. Boa noite Lua. Resta-lhe esperar que amanheça radiosamente e que o dia não lhe traga mais tempestades.

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