O silêncio da noite traz-te até mim, calmo e sorrateiro entras pela janela entreaberta como leves pingos de chuva. Olhas-me do fundo da minha cama como quem me analisa por dentro e eu finjo não ver. O teu olhar observa atento cada meu movimento, analisando as minhas fraquezas e tudo o que trago por dentro. Ignoro-te e fumo um cigarro, prefiro esquecer que me vês por dentro e me fazes repensar cada passo que dou ou dei. É quando te vais que me analiso, é o silêncio sem ti que me faz ver tudo o que tu vês quando olhas para mim do fundo da muralha dos meus sonhos. É saber-te noutro sitio que não aqui que me faz querer-te e pedir-te no nosso silêncio que fiques. Faço de conta que não vejo as noites que passas do outro lado da janela, desse lado onde tudo soa muito mais a vida e ninguém ouve o silêncio. Mas tu ouves, e percebes tudo o que ele te diz. E esperas desse lado de fora, até que a noite caia e se faça silêncio no meu quarto, e só então entras. Contemplas-me até eu te conseguir ouvir na profundidade da tua calma e quieta mudez. Trazes nos bolsos todos os sonhos do mundo e desenhas histórias nas mentes das pessoas. Mas nem toda a gente te ouve e percebe, e pouca gente pára para te ouvir. Mas eu paro, e é por isso que esperas por mim, quando a tempestade acalma e eu já te consigo ouvir por entre a chuva miudinha.
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