Conversas com o espelho

Ultimamente tenho dificuldade em expressar-me. Tenho muita coisa para dizer, mas tudo parece demasiado confuso para se enquadrar em quaisquer palavras. Ás vezes ponho-me a pensar que a vida dá demasiadas voltas e o tempo passa demasiado rápido ou demasiado devagar, consoante a ocasião. Diria que o tempo tem voado e a vida tem demasiadas curvas e caminhos tumultuosos. Encontro-me por vezes no meio de uma estrada, sem saber de onde vim ou para onde vou. Encontro demasiadas pedras no caminho, e ao tentar contorna-las elas tornam-se em gigantes Adamastores. Encontro-me sem forças no meio dessas estradas onde me perco. Esmaga-me por dentro o desejo de voar, a vontade de poder fugir para longe daqui. Passam demasiados dias, demasiado depressa. A vida gira envolta num turbilhão de problemas.Tantas são as portas que aparecem, mas todas as que abro libertam monstros que não sou capaz de controlar. Ensinam-nos a enfrentar esses monstros, mas eu encontro-me aqui, sentindo-me demasiado pequena e incapaz de qualquer tipo de reacção. E quando reajo e enfrento os monstros, prontamente aparecem mais, e maiores. Dizem que estas fases são apenas tempestades, e que depois virá a bonança. Á muito que a espero, desesperando com a quantidade de tempestades. Ás vezes canso-me, e saio para a rua, no meio da tempestade, gritando que estou farta e que não quero lutar mais. Mas nada melhora, quer eu faça ou não algo. Estou cansada de tentar, de me esforçar e de não conseguir. Acordo no meio da rua, encharcada dos pés a cabeça, mas levanto-me e volto a tentar. E por muito que me esforce a lei da gravidade ou da inevitabilidade é sempre mais forte que eu. Nunca fui pessoa de desistir, mas muitas vezes desisti. Verdade é que ninguém luta por nós, mas também não se luta sozinho contra a tempestade. Ás vezes deambulo, vazia de qualquer tipo de sentimento, qual caixa de Pandora que jaz aberta. Resta ainda, lá bem no fundo, a esperança, sendo esta por vezes tão boa como má. Canso-me de lutar sozinha e caio outra vez, desanimada por apostar sempre no cavalo errado. Muitas vezes duvido de mim e acho que não sou capaz. Muitas vezes me levanto ressacada da queda, achando que mesmo assim irei conseguir combater tempestades. A esperança aparece tanto para me animar como para me arrebatar logo a seguir, porque tentei voar alto demais. Verdade é que prefiro tentar e cair, do que permanecer sem tentar, mas as marcas das quedas são cada vez mais profundas, e eventualmente questiono-me se realmente valeram a pena. Encontro-me muitas vezes sozinha, rodeada de nada e de coisa nenhuma. Aquilo que mais tento agarrar é aquilo que mais teima em fugir. Mas se nada fizer, também nada terei. Encontro-me assim, sem grandes braços que me ajudem a levantar e que me apoiem no caminho. Apego-me demasiado ás pessoas, como forma de tornar mais firmes os meus passos. Faço demasiados planos que se revelam infrutíferos, mas quando não os faço tudo é infrutífero também. Sempre fui demasiado impulsiva, o que nem sempre me levou a bons resultados, mas quando não o sou os resultados são os mesmos. Encontro-me assim, mais uma vez, plantada no meio de uma estrada sem saber em que sentido ir. Trago em mim demasiados sonhos, carregados de demasiadas perdas. A vida cansa-me. Ultimamente a vida esgota-me. Depois de um dia mau vem sempre um dia pior, e depois da tempestade vem sempre um tsunami ou um furacão. Ultimamente cansam-me os dias como me cansam as noites, cansam-me os minutos como me cansam as horas. Queria então, por entre palavras e metáforas, conseguir expelir tudo o que tenho por dentro, tentando assim analisar o mau e bom das minhas acções. Assusta-me a conclusão a que cheguei, por ser a mesma de onde tinha partido: a vida é fodida. Cansa-me isto tudo por dentro. Nunca ninguém disse que seria fácil, nunca ninguém disse que seria cor-de-rosa, mas também não deveria ser tão negra. Arrastam-se os dias, parecendo cada vez mais difícil qualquer tarefa, ou a obtenção de bons resultados. Cansa-me tudo isto porque tento. Cansa-me isto de cair porque realmente me esforço. Realmente acredito que poderá vir leve chuva miudinha depois da tempestade, mas é a realidade que me desanima e me atira para baixo, cada vez mais para baixo. Venho de um passado onde perdi muita gente, umas porque não as agarrei bem e outras porque simplesmente decidiram fugir. Mas cansa-me, no meio disto tudo, sinceramente cansa-me o facto de acabar por perder ou afastar quem quero. Sim, por vezes erro. Todos erramos, esta é das poucas verdades que assumo como exactas. Outra verdade que tomo como certa para mim é que devemos aprender com esses erros. Mas o ser humano pensa-se sempre superior aos erros dos outros, mas quando se trata dos nossos tentamos esconde-los, encobrindo a verdade da nossa condição de ser errante. Aceito assim os meus erros, e tento, quando não os posso evitar, controlar e minimizar os danos. Mas ai surge outra arrogância do ser humano, a incapacidade de perdoar. Somos então seres rancorosos, sequiosos de vingança e com a cabeça demasiado virada para nós, para conseguirmos ver os outros. Encontro-me assim, cansada de todo este mundo hipócrita, que não se cansa de me cortar as asas sempre que tento voar. Fecho então os olhos, percorrendo o fundo da caixa de Pandora, procurando então qualquer réstia de esperança, para poder tentar amanhã outra vez.

Comentários

  1. Li tantos desabafos teus...senti as tuas palavras nas minhas mãos, nas mãos que não se conseguem expressar, por algo mais forte que me trucida a mente, os pensamentos...
    Em tempos, sentia o dom da palavra dentro de mim, expresso fora de mim...agora a vida deu muitas voltas. Nasceram os problemas, a responsabilidade, a necessidade de lutar e seguir em frente num mundo que não é o nosso...e as palavras fugiram... apenas ficaram pensamentos. E eles fustigam, arrastam, arrasam, ruminam...
    Conforta-me a tua escrita... conforta-me saber que não estou sozinha... =)

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  2. obrigada , é sempre bom saber qe as minhas palavras são sentidas e vividas.

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