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Tempo
"O relógio tictaqueava o tempo devagar", sem pressa de ver as horas passar eu esperava e desperava, nunca percebi bem o porquê. O tempo arrastava-se tão devagar que eu nem o sentia. Não sentia os dias, nem as noites, nem a diferença entre os segundos e as horas. Arrastavam-se os dias em torno de silêncios ferozes e de gritos mudos de desespero. Levantavam-se olhares como muralhas que afastam os mundos. Esvazia-se a alma e o peito, em frases que não significam nada, mas que significam tudo. Mordem-se os dedos por não poder gritar as dores que trago em mim. Morrem-me as lágrimas nos lábios, de tão lentas que correm, de tão infelizes que se sentem. Ouves-me mesmo sem perceberes a linguagem que falo, mesmo sem sentires o peso que trago nos ombros. Olhas para mim, mesmo não me vendo por dentro ... Trago-te em mim como quem traz os anos, que marcam e saturam o corpo, por dentro e por fora. "O que tenho em mim é sobretudo cansaço."
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